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Erico verissimo e o Prêmio Nobel

Recentemente, durante o processo de organização e catalogação do acervo bibliográfico do Memorial Erico Verissimo, que está sendo disponibilizado na plataforma online Tainacan, foi encontrada uma espécie de carta datilografada com correções a mão do próprio autor. A carta era um agradecimento pela indicação ao Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1968, fato este que desconhecíamos sobre a vida de Erico.  


A carta é endereçada ao Pen Clube de São Paulo, organização fundada em 1936, nos moldes do P.E.N Internacional (Poetas, Ensaístas e Novelistas), iniciada em Londres no início dos anos de 1920, formada por escritores que se dedicavam à liberdade de expressão. De antemão, Erico agradece a organização por indicar seu nome, após a consulta realizada pela Academia de Estocolmo sobre o Prêmio Nobel naquele ano.  

Carta datilografada de agradecimento de Erico Verissimo ao Pen Clube de São Paulo com marginálias escritas a mão pelo autor amarelada pelo tempo segurada por mãos eluvadas com luvas azuis sobre fundo branco
Carta de agradecimento de Erico ao Pen Clube de São Paulo | Fonte: Acervo/Carla Mussoline

Ao longo do comentário, Erico se mostra bastante surpreso com a indicação, demonstrando que naquele período estava bastante alheio as notícias do mundo, apenas acompanhando o básico a partir do rádio ou da televisão: “Há meses que estou metido no meu “covil” a escrever o segundo tomo de minhas memórias”. Neste trecho, o autor demonstra o quanto está focado em acabar a escrita de Solo de Clarineta II, obra esta que, infelizmente, não foi concluída por ele, mas por seu amigo Flávio Loureiro Chaves, que a concluiu e publicou de forma póstuma. 


O autor, apesar de agradecido por ser lembrado, aponta que, em sua opinião, a obra não mereça o “mais alto prêmio literário do mundo”, pois além de nosso país possuir outros grandes escritores que nunca tiveram o prazer de receber a premiação, há nomes estrangeiro como, Aldous Huxley e Niki Kazatzakis, que faleceram sem o reconhecimento por suas obras. Inclusive, o primeiro nome citado, Huxley, é um dos diversos autores que Erico traduziu para o português pela Livraria do Globo. Em nosso acervo, consta os dois volumes da obra “Contraponto”.  


Por fim, Erico ainda aponta que o interesse em finalizar esse processo das suas memórias, seria para fechar o círculo de sua carreira literária. Assim que lemos, é possível pensar que o autor gostaria de se aposentar, mas logo em seguida, com toda sua perspicácia, o próprio responde que o intuito seria começar uma nova jornada, só não sabia ainda qual direção seguir. “Para me aposentar? Não. Para começar outra, não sei ainda em que direção.” Até hoje ansiamos por esse novo rumo que, infelizmente, não se concretizou por falta de tempo e por sua repentina partida, deixando o romance intitulado “A hora do sétimo anjo” apenas em esboços.  




 

Carta na integra 

- A notícia de que o Pen Clube de São Paulo, consultado peça Academia de Estocolmo, havia indicado meu nome para candidato ao Prêmio Nobel de Literatura deste ano foi para mim uma grande surpresa.  

Há meses que estou metido no meu “covil” a escrever o segundo tomo de minhas memórias. Cartas que me chegam mas não posso às vezes nem sequer lê-las, quanto mais responder a elas. Pedi uma espécie de “moratória epistolar geral” Pelo rádio e pela televisão tomo conhecimento das notícias do muno. Claro, leio também os jornais, mas muito depressa. Vou pondo a um canto os livros que me chegam. A pilha deles está já mais alta que eu. Espero ter um dia oportunidade de ler pelo menos boa parte dessas obras. Quando? Depois que terminar os dois volumes que me faltam para completar o SOLO DE CLARINETA. Tive de fazer uma opção entre ser um sujeito bem educado, cumpridor de seus “deveres sociais”, caso em que teria de parar de fazer literatura, e enfrentar a possibilidade de ser considerado um sujeito metido numa torre de marfim e esquecido do mundo, dos amigos, dos leitores. Optei (mas com que carga de remorsos!) pela segunda atitude.  

Mas, voltando ao Prêmio Nobel, estou profundamente grato aos membros do Pen Clube de São Paulo, por terem lembrado de mim. Vou falar sem modéstia, falsa ou autência [sic]. Vou usar o bom senso. Como leitor (me considero um razoável leitor) não acho que minha obra mereça o mais alto prêmio literário do mundo. Existem no Brasil outros escritores com mais qualidades que eu para se candidatarem à grande láurea. Veja bem, homens como Aldous Huxley, Niko Kazatzakis e outros de igual estatura literária morreram sem nunca terem recebido o Nobel. Quanto aos escritores vivos, penso em André Malraux (ideias políticas a parte) Graham Green, Saul Bellow (na minha opinião o melhor romancista americano do momento) em Georges Simenon, José Luís Borges.  

Seja como for, estou muito grato ao Pen Clube de São Paulo pela grande distinção que me conferiu, que já me considero um prêmio em si mesma.  

E agora volto ao “covil” para continuar escrevendo as memórias. Com elas pretendo fechar o círculo da minha carreira literária. Para me aposentar? Não. Para começar outra, não sei ainda em qual direção.  

Erico Verissimo  

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